"Ai ,estou tão tão cansado, dona Lagarta!Tão cansado! Nem imagina! Tenho os meus pés duma maneira que até parecem ferraduras, salvo seja!"
(olha-me este a armar-se. Deve estar é cansado de não fazer nada todo o dia)
" Ó senhor Agapito, credo, homem. Nunca o vi assim. Anda sempre tão jovial, tão pé-leve, tão aluado. Que se passa? Foi a Fátima a pé, foi ao Jardim Zoológico, esteve na fila do desemprego, conte lá, homem"
" Nada isso. Ai os meus pés, valha-me Deus. Espere aí que vou tirar os sapatos, se não se importa"
"Ah importo importo. Com essa maleita toda é melhor tirá-los em casa, não? Ainda agora borrifei as escadas com anti-moscas. Não é grande cheiro....mas quase que apostava que é melhor do o que das suas meiinhas, não?
" Não sei. Mas podemos ver. Eu..."
"Ei, espere aí. Calminha com os chanacos. Conte mas é porque está nesse sofrimento, homem. E até pode encostar-se a mim, se quiser, veja lá, não caia!"
( encosta, encosta..anda lá, pode ser que hoje te dês conta da minha beauty interior ..)
"Pois encostarei. Então com licença. Ai, que alívio, credo!"
(se chamas a isso encostar, filho da mãe. Ó sorte a minha ,macaca)
" Sabe, dona Lagarta. É que eu estive todo o santo dia em pé no café ali do Potássio. Todo o santo dia! Livra! Já não aguentava mais. Já nem esperei pelos jantares. É falta de hábito, sabe, estar em pé não é muito do meu feitio. É mais para o sofázito, sabe? Enroscadito e coisa e tal."
" Isso sei eu. Vá, agora diga qualquer coisa que eu não saiba, vá lá"
" Gosto muito de coelho assado com.."
" Ó senhor, que paciência. Diga-me o que se passou para estar todo o dia em pé, homem, ande lá, não tenho o dia todo!"
" Ah, pois, isso é verdade. Já são quase oito horas e o dia..Bem, vamos lá então. Eu conto. Tive uma grandessíssima ideia durante a noite quando me levantei para ir fazer um xi-xi que depois redondou noutra coisa o que até foi bom senão não tinha estado sentado naquele sossego algum tempito o que fez com tivesse tempo para pôr aqui umas coisas em ordem na minha cabeça que anda meio tonta por causa da vida que levo que não é vida que se leve porque só faço biscates e assim não vou a lado nenhum e.."
"Irraaa! Pare aí homem. Até estou ofegante. Vamos lá: xixi. Tudo bem E nos afters? Ou nos entrementes? O que é que pensou então?"
" Nas facturas, dona Lagarta.Nas facturas!"
" Logo vi que uma ideia dessas só lhe podia dar na casa de banho. Facturas...quais facturas, homem?"
" Dona Lagarta. Pense. Pense comigo. A gente tem de pedir factura de tudo o que consome, não é?"
" Quer dizer...eu hoje estou consumida por não ter nada para jantar mas não pedi factura a ninguém, né?"
" Sua brincalhona. Sabe bem do que estou a falar. E então é assim. Enquanto lá estava sentadito e tal e coisa fui pensando, fui puxando - pelas ideias, claro - e lembrei-me desta maravilha. Como quase toda a gente recebe a facturita disto e daquilo e a deita logo para o lixo ou finge que a leva na mão até ao próximo caixotito, lembrei-me - pasme, minha senhora dona - lembrei-me de ir para ali para o café do Potássio que até serve refeições e tudo e resolvi perguntar às pessoas" Olhe, quer a factura?" "Eu não", "Então dê cá!". Bem, nem queira saber o montante que devo aqui ter, nem queira saber! E assim, se fizer isto todos os dias, ena pá, vou poder apresentar os tais vinte e não sei quantos mil euros para o IRS. Tá a ver? Genial, hein? Só esta cabeça a pensar assim enquanto se aliviava!. Não acha?"
" Acho, acho. Acho que é altura de aliviar aí a encostadura a mim porque o senhor esteve a perder tempo e eu também" ( nem para o meu batonzito novo olhou, raios o partam!)
" A perder tempo, eu? A senhora está é com inveja, está, está. Sua marota.."
" Marota era a sua avó. Se é que teve avó. às tantas é filho do valha-me Deus! Ó homem, você não vê que não vai conseguir fazer tanto dinheiro, não? Cafés, bifitos a cavalo, arroz de polvo, alheira, maçãzita, ...está doido. Você precisa é duma coisa em grande, homem. Muita comida, muita viagem, muita roupita upa upa, muita cultura, muita..."
" Tenha calma, dona Lagarta. Isto foi hoje. Hoje foi o Potássio. Amanhã será num daqueles restaurantes onde se come pouco mas se paga balúrdios, tá a ver? E por aí fora, pecebe?"
" Pecebo. Então não pecebo. Aí nesses você não entra, ó, ó. Viste-los!"
" Detesto quando a senhora me desmoraliza. Fico sem moral nenhuma. Agora sou eu que lhe digo: apre!. Um apreçozinho não lhe ficava mal de vez em quando. Olhe, vou andando. Agradecido pelo apoio".
" De nada. Pode-se apoiar quando quiser!".
( não sei o que é que eu tenho....mas mais um que se raspou a correr. Estranho...)
"