domingo, 24 de fevereiro de 2013

Sabão azul

Não sei se já vos falei da dona Cesaltina, mas acho que não. Vive mesmo ao lado da Fedúncia e quase todos os dias se pegam. É uma barulheira nas escadas que nem queiram saber! "Sua esta" e "Sua aquela" são só dois dos palavrões que até fazem corar o cão do Agapito. E porqûe é que elas se pegam? Variadíssimas coisas. Hoje foi por causa de sabão. Segundo percebi, a Fedúncia foi pedir sabão emprestado à Cesaltina e esta pegou-se-lhe o fogo quando ela lho foi devolver. Mas isto só ouvido.

" Ó seu traste redondo! Sua engolirodora de sabão! Já viu o que fez, já?"
" Ouça, Cesaltina. Você não me exalte, ouviu? O que é que tem o sabão? Não foi esse que me emprestou, não, sua finória? Olha-me esta."
" Não, não foi. Este sabão é uma minúscula partícula do sabão que lhe emprestei, percebe? "
" Claro. Queria o quê? O sabão gasta-se, ou não? Se me lavei com ele e aproveitei a lavar os interiores íntimos e a louça e os vidros da sala e o chão e a carpete, queria o quê, hein? Que viesse inteiro?"
" Queria. Ah, pois queria. Não tinha nada que usar o meu sabão para isso tudo. Era a mãozita e chega. Você disse-me "Ò Cesaltina, empresta-me o sabão para lavar as mãos que se acabou o meu?". Foi para lavar as mãos, não foi para mais nada. Sua vigarista sabonetária!"
" Ai é? Só as mãos? Só? Então e depois de lavar on interiores, não lavei as mãos? E depois de lavar os vidros e o chão e a carpete não se lavam as mãos, não? Lavei. Viu? Lavei as mãos. Viu? Não menti coisa nenhuma. Você é que é uma ingrata. Uma ingrata!"
" Ingrata, eu? Essa agora! Então eu empresto o sabão e sou uma ingrata? Porquê? É que não descortino nada que a possa levar a dizer tal disparate! Ingrata porquê? Vá!"
" Porque lhe entrego o sabão lavadnho, olha quessa! Ora veja. Veja! Lavadinhooo! E bem cheiroso, ora cheire, cheire!"
" Cheiro coisa nenhuma! Quer que cheire essa coisa minuscula que me está a dar? Quero é o meu sabão de volta! Era um sabão azul da melhor qualidade, sua porcalhona! Se não tivesse coisas para lavar não precisava de ter gasto o meu rico sabão azul. Ponha os olhos em mim, ponha. Ando porca, por acaso? E não uso sabão!!"
" Por acaso até anda porca, mas isso nem vem ao caso. Mas agora disse-me uma que eu nem sei, nem sei como não lhe vou às fuças! Sabão azuuull? Azul? Azul porquê, hein?"
"Ora esta! Porque é sabão azul."
" Ai é? Azulinho? Ah você é das que tem a mania que lá nos nortes é que é tudo bom, não é? Pois, pois, vá indo, faça as malas e desloque-se. Ide indo! Sua nortista! Sua infiltrada!"
" Acabou-se a conversa. Acabou-se. Dê cá a porcaria do naco de sabão e saia da minha vista. Vá lamber sabão!"
" Ora aí está finalmente uma coisa acertada! Então empreste-me lá outra vez o sabão, sim?"

Vocês não calculam o estrondo. A Cesaltina atirou-lhe com a porta com tanta força que até se me cairam os copos da cristaleira. Não é que eu tenha cristaleira, mas sempre me fica melhor dizer assim. Para manter o nível. Se não for eu, este prédio é uma bandalheira.

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