Foi tudo corrido daqui para fora! Tudo! Cão e tudo! Onde é que já se viu uma coisa destas? Isto é a casa da sogra, ou quê? Primeiro foi a Fedúncia, depois o Agapito e cão, depois a Lulu, depois a Escolástica...livra! É que já não podia mais! Bolas! E sabem o que eles queriam, sabem? Ah, não sabem? Então eu digo, mas digo já, antes que me dê o desarringanço que me costuma dar quando estou mui nerbiosa, mui nerbiosa e que me leva ausentar para um local donde saio passado um tempito. Mais leve e mais calma, é certo. Mas mais esquecida. Talvez por estar tanto tempo com a mão no nariz por causa.....Adiante. Dizia eu, ou melhor, vou dizer agora porque é que aquela malta me veio chatear. Queriam convidar-me para um grupo coral. Ouviram bem. Um grupo coral, uma coisa dessas de cantorias. Mas sabem para cantar aonde? Nas manifestações. Ouviram bem. Nas manifestações que por aí andam. Chatearam-me o juízo até dizer chega! Que se tinham inscrito à borla, que iam à borla para todo o lado, que era uma maneira airosa de conhecer o país, eu sei lá!
- Venha, dona Lagarta. Venha connosco. Comidinha da boa, pinguita da boa, vai ser uma maravilha!
- Ó mulher, mas eu nem sei cantar, bolas!
- Venha, dona Lagarta. Venha connosco. Comidinha da boa, pinguita da boa, vai ser uma maravilha!
- Ó mulher, mas eu nem sei cantar, bolas!
- E quem lhe disse que é preciso saber cantar? Nós também não sabemos. Eu até quando me ponho a cantarolar lá em casa, levo logo com a vassoura do vizinho de cima que até o outro dia se me caiu um bocado de cimento do tecto e fez uma poeirada de tal ordem que até tive de abrir a porta o que foi uma grande gaita porque ia a dona Lulu a sair e sujou-se toda com a poieirada e tudo e teve de voltar para trás e ainda tive que a ouvir a mais a tia dela que é maluca e que julgou que estava o prédio a cair e saltou-me para o colo a gritar "AI, ai, é o fim do mundo!". Está a ver? Eu também só acompanho a letra, mais nada!
- Pois, aí está outra coisa! Não sei letra nenhuma, tá a ver? Percebe?
- Percebo mas também não faz mal. Eles disseram que nos dão um papelito prá mão e a gente nem tem de saber nada de cór. É só lá,lá,lá. o que lá estiver. E,ó dona Lagarta, já viu o que é aparecermos na televisão, valha-me Deus? Já viu? E poder dizer adeus ao senhor Felismino da mercearia e à mulher dele, a Ludovina, que até se vai roer de inveja e tudo . Quer melhor?
- Quero. Quero não fazer figura de parva, Fedúncia.
- Pois, mas vê, nem isso fazemos. Já somos meio aparvalhados e também ,no meio de tanta gente, ninguém nota, né? Ande lá, carambas, venha daí ao portugal desconhecido.
- Não, não e não. Por exemplo, onde dormem? Vá, diga lá, onde dormem?
- Depende donde estivermos e da agenda.
- Da agenda? Qual agenda, Fedúncia?
- Das marcações, né? Haverá meses mais cheios e outros menos. É conforme as barracadas do governo, mas não se aflija, como são muitas não devemos ter parança. Olhe, este mês temos ai umas 40 agendadas. E algumas no Algarve, já viu? Praia, solinho, calorzinho, e coisa e tal. Já viu?
- Já vi. Não quero. Não quero mesmo, gaita. Prefiro a minha casinha.
- Eu também, ora essa. Mas sempre se poupam uns tustes na comida e na bebida, e sempre dá para compensar a falta dos subsídios!
- Quais subsídios, Fedúncia? Você não trabalha!
- Pois não. Mas devia ter subsídio por não trabalhar, homessa. Poupo dinheiro ao estado, ou não poupo? Homessa! Que coisa chatarrona, gaita! Ande daí!
- Ó senhor Agapito: e o senhor porque está tão calado? O senhor também vai com a Fedúncia? E o cão, acompanha-vos, é? e também há ossitos pró cãozinho, é?
- Dona lagarta, eu vou sim. Acabou-se-me ontem o leite e o peixe e a carne e o feijão e o vinhito, tudo, tudo, enfim, olhe, é uma obra de misericórdia, sabe? Para comigo, sabe? Mas não quero falar porque a Fedúncia disse para eu calar a boca aqui ao pé da dona Lagarta ou não me levava, percebe?
-Então não percebo. O senhor saiu-me cá um traste. Faz tudo o que a Fedúncia quer! Pois eu não. E não vou mesmo. Chega. Leve lá o cão, está-me a fazer xixi na alcatifa. Vá, chou, embora. Tenho mais que fazer!.
E foi assim. Lá foram. Mas fiquei incomodada, caramba. De qualquer modo fazem-me falta aqui no prédio. Agora a quem é que eu cravo umas comiditas? Assunto a pensar com o travesseiro. Infelizmente só com o travesseiro.. não há meio de ver aquele lugar ocupado, bolas!
- Pois, aí está outra coisa! Não sei letra nenhuma, tá a ver? Percebe?
- Percebo mas também não faz mal. Eles disseram que nos dão um papelito prá mão e a gente nem tem de saber nada de cór. É só lá,lá,lá. o que lá estiver. E,ó dona Lagarta, já viu o que é aparecermos na televisão, valha-me Deus? Já viu? E poder dizer adeus ao senhor Felismino da mercearia e à mulher dele, a Ludovina, que até se vai roer de inveja e tudo . Quer melhor?
- Quero. Quero não fazer figura de parva, Fedúncia.
- Pois, mas vê, nem isso fazemos. Já somos meio aparvalhados e também ,no meio de tanta gente, ninguém nota, né? Ande lá, carambas, venha daí ao portugal desconhecido.
- Não, não e não. Por exemplo, onde dormem? Vá, diga lá, onde dormem?
- Depende donde estivermos e da agenda.
- Da agenda? Qual agenda, Fedúncia?
- Das marcações, né? Haverá meses mais cheios e outros menos. É conforme as barracadas do governo, mas não se aflija, como são muitas não devemos ter parança. Olhe, este mês temos ai umas 40 agendadas. E algumas no Algarve, já viu? Praia, solinho, calorzinho, e coisa e tal. Já viu?
- Já vi. Não quero. Não quero mesmo, gaita. Prefiro a minha casinha.
- Eu também, ora essa. Mas sempre se poupam uns tustes na comida e na bebida, e sempre dá para compensar a falta dos subsídios!
- Quais subsídios, Fedúncia? Você não trabalha!
- Pois não. Mas devia ter subsídio por não trabalhar, homessa. Poupo dinheiro ao estado, ou não poupo? Homessa! Que coisa chatarrona, gaita! Ande daí!
- Ó senhor Agapito: e o senhor porque está tão calado? O senhor também vai com a Fedúncia? E o cão, acompanha-vos, é? e também há ossitos pró cãozinho, é?
- Dona lagarta, eu vou sim. Acabou-se-me ontem o leite e o peixe e a carne e o feijão e o vinhito, tudo, tudo, enfim, olhe, é uma obra de misericórdia, sabe? Para comigo, sabe? Mas não quero falar porque a Fedúncia disse para eu calar a boca aqui ao pé da dona Lagarta ou não me levava, percebe?
-Então não percebo. O senhor saiu-me cá um traste. Faz tudo o que a Fedúncia quer! Pois eu não. E não vou mesmo. Chega. Leve lá o cão, está-me a fazer xixi na alcatifa. Vá, chou, embora. Tenho mais que fazer!.
E foi assim. Lá foram. Mas fiquei incomodada, caramba. De qualquer modo fazem-me falta aqui no prédio. Agora a quem é que eu cravo umas comiditas? Assunto a pensar com o travesseiro. Infelizmente só com o travesseiro.. não há meio de ver aquele lugar ocupado, bolas!