Qualquer dia não saio de casa. Ou então só saio de noite. Estou fartinha de querer ir à minha vida e apanhar com a malta cá do prédio nas escadas. Puxa. Já não há privacidade nenhuma! Hoje foi a sarna da Fedúncia. Eu bem que apressei o passo que até ia caindo escada abaixo o que não seria nada bom porque resolvi pôr uma saiita bem apertadinha e ainda se me viam os interiores que, convenhamos, são um bocadito frouxos, em comparação com o exterior, altamente preparado para arrasar. Nunca arraso coisa nenhuma, mas tento. Já não é mau. Mas dizia eu que fiz os possíveis para não apanhar com aquela tola. Não tive sorte. "Ó dona Lagarta! Pssiu! Espere aí!". Ó sorte macaca...
- Diga, diga. Bom dia. Tão cedo a pé? Não era melhor voltar para a caminha,não?
- Ah, não, nem pensar! Acordei a correr para lhe vir contar uma ideia que tive! Até estava a ver que já não a apanhava!
- Ah, pois, seria uma pena. Olhe que seria mesmo uma pena, viu? Mas apanhou. Então qual foi a ideia? Estou curiosa! Você não é muito farta em ideias, não é muito idiota.
- Pois não. Reconheço. Mas excedi-me. Deve ter sido do jantar de ontem, sabe? Passei a noite na casa de banho e é sempre aí que me surgem as ideias. Não sei porquê. E são sempre boas!
- Ah pois são. São as chamadas ideias de m..., de magnificência!
- Magnif...pois...ai ca lindo! Bem, deixe-me contar. Eu vou propôr um outro tipo de mails. É assim que se diz, não é? Então. Cada mail que a gente recebe devia ter um quadradito ou uma cruzinha ou um bonequito prá gente carregar e dizer que gostou . Ou não. E outro para dizer "Vai-te lixar" e outro com " Isso querias tu", ou " Ai ca lindo" ou " Se me mandas isto outra vez, levas". Era uma maravilha. Poupava trabalho. Era só carregar. Tá a perceber?
- Olhe que até...você tem de ir à casa de banho mais vezes. Fica veborreica, sabe?
- Pois fico. Não sei o que é, mas da sua boca só vem coisa fina. Por isso aceito. Fico seborreica.
- Veborreica, mulher. Ve. Ve.
- Está com soluços? Já passa.Mas não acha que era bom? É que eu farto-me de mandar mails ao Agapito e o homem nunca me responde. Nunca. Fico assim a modos que sem saber se gostou ou não. Ainda ontem lhe mandei um convite para vir cá almoçar e nada, o homem não se descoseu!
- Ainda bem. A roupa está cara. Pois. Mas porque não vai lá acima perguntar-lhe?
- Porque prefiro levar um Não por mail, sabe? Ao menos não lhe posso ir às ventas. Só descarrego na louça. Cada Não já me custou quase um serviço inteiro. Não há quem aguente, né?
- Então repita o mail. Mas eu se fosse a si, punha também a ementa. Pode servir de isco.
- Pois pode. Realmente não mandei a ementa. Só mandei dizer que ele é que trazia o almoço. Fiz mal?
- Ele é que.....Olhe, Fedúncia. Agora não posso, mas depois eu escrevo-lhe o mail. Sim?
- Faz-me isso, faz? Ah grande amigona. Já ganhei o dia!!Assim sempre posso escolher a ementa com mais calma e a dona Lagarta pode dar-me umas ideias. Ele vai gostar de certeza. E não lhe vai ficar muito caro.Até...
-Fedúncia. Até logo. Ciao.
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