quinta-feira, 14 de março de 2013

A criança

- Ó senhor Agapito! Quem é esse menino tão lindo? Quem é?
- É lindo, não é? É meu afilhado, sabe? Filho da Joaquina ali da mercearia.
- Ah, sim? Olá meu lindo. Estás bom?
-.......
- Pois. Então e porque é que o tem cá hoje?
- Porque, coitadito, veja lá, mandaram-no embora da escola e a Mãe não podia ficar com ele. Vai daí ofereci-me. Faz-me companhia e jogamos uns joguitos e tal.
- Olhe que bom, vê? Mas diga-me, porque é que ele veio para casa? Alguma doença, diarreia, coisa assim melindrosa? Palpitações?
- Não, não. Veja lá que o menino, coitadito, deu uma murraça na professora e sem mais aquelas, mandaram-no para casa.
- Não me diga! Só por dar uma murraça na professora? Isto realmente!
- É o que está a ver. E quase nem lhe tocou. Só lhe partiu 2 dentes. Só dois, veja lá. Ainda faltavam trinta e tal. E o empurrão que lhe deu também não foi coisa demais, ela só caiu para cima da mesa e esmurrou o nariz e até nem deitou sangue. Depois caiu no chão, mas mais nada. Nada. Só partiu a cabeça. Mas, valha-me Deus, só um rachozito de nada, parece que só levou vinte pontos. Portanto, tá a ver. Isto anda tudo maluco. Coitadinho do Felismino. Não é, meu lindo? Ora diz lá boa tarde à senhora, diz.
-.................
- Pois. Deixe estar, senhor Agapito. A criança deve estar combalida, deixe lá. Então porque é que tudo isso se passou? Como é que ele, enfim, se exaltou?
- Nem me fale. Uma boa estaferma aquela professora, sabe? Veja lá que o Felismino, tadito, estava só a ouvir música na aula e nem sequer estava cantar muito alto. Pois aquela fulana teve o descaramento absolutamente descarado de o mandar parar a música. Agora a senhora veja, então como é que o Felismino se podia concentrar com ela para ali blá, blá, blá, a falar de coisas que ele não sabe nem quer saber? Olhe que realmente! Não acha?
- Eu estou pasmada, homem. Pasmada.Ela queria o quê? Que a criança tivesse com atenção, queria? Valha-me Deus. Só visto!
- Só visto mesmo, dona Lagarta. Só visto e ouvido.O que vale é que ela já foi internada e parece que vai demorar uns tempos a recompôr-se da murraça e do empurrãozito. gente fraca, sabe? Agora fica-me a criança sem aulas, já viu?
- Pois já vi, já. E ele veio para casa porquê? De castigo?
- Não, dona Lagarta. Acabou-se-lhe a carga do telemóvel. Como é que podia ouvir música nas outras aulas, diga-me? Sim, porque lá na escola, diga-se a verdade, foram muito prestáveis, até disseram que por eles, ele até ficava já em casa, mas que estivesse descansado porque não podiam fazer nada contra ele a não ser recomendar um psicólogo ou lá o que é. Já viu? Um psicólogo. De borla! Simpáticos, são ou não são?
- Muito, senhor Agapito, muito. E já agora, que idade tem o Felismino?
- Só quinze anitos. É uma criança.
- Pois é. Isto não se faz. Não deixar agora um menino ouvir musica nas aulas. Assim não se desenvolve, valha-me Deus.
- Pois não. E ele até está meio nhurrito, mas é da idade, sabe?
- Sei, sei. Bem, senhor Agapito, prazer em vê-lo. Vou indo, sim?
- Eu também. Até à próxima. Vou só lá acima com a criança carregar o telefone. Tchauzinho.

Espero que ele não tenha ouvido o berro que eu dei mal entrei em casa. Não deve ter ouvido. Foi na cozinha para dentro da chaminé.

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