terça-feira, 5 de março de 2013

Não basta ser ladrão

Chegou precisamente à mesma hora, com os mesmíssimos presentes, e a maçar do mesmo modo.
Dª Purificação tinha uma carta para lhe entregar, mas tinha também que depenar uma galinha para o jantar, que isto de ser dona de uma pensão não é brincadeira nenhuma. Ainda para mais estava sózinha. Faltara a cozinheira, que tinha ido ao casamento de uma irmã. E também não estava a ajudante, que tinha ido comprar canela para o leite creme, mais uma fruta e umas nozes.
-"Chegou a falar com a sua filha, como me prometeu, Dª Purificação?"
Aí estava ele, a bater no mesmo, apaixonadíssimo, obcecado, à espera de saber o que ela dissera, se o queria ou não. Como sempre, entregou-lhe um pacotinho de bombons. "Coma, Dª Purificação, coma! Eu sei que gosta muito!".
Dª Purificação gostava realmente muito, era muito gulosa, tinha esse defeito. Tirou o papelinho a um, meteu-o na boca, e foi pondo o avental, que tinha de ir depenar a galinha sem demoras.
-"Falou-lhe, Dª Purificação? Transmitiu-lhe tudo o que eu disse? Para ganhar o amor dela até nem me importava de ser ladrão!"
Dª Purificação demorou a chupar o bombom, que isto de se transmitir uma recusa tinha as suas dificuldades e ela não queria magoá-lo, coitado do sujeito, assim tão apaixonado, que às vezes até fazia dó!
-"Falei sim senhor, eu falei!"- acabou por dizer, sem rodeios, que o melhor era perder os acanhamentos, despachar o recado e pronto. "Até tenho aqui uma carta para lhe entregar...".
Tinha uma carta no bolso do avental, com duas a quatro palavras, quem diz estas diz pouco mais; conhecia bem as intenções da filha, que não gramava, que o mandava passear.
Levou tempo a entregar-lha. Tinha mesmo pena do sujeito. Um hóspede tão amável, que lhe dava bons presentes, que se desfazia em atenções, bem gostaria que a filha o gramasse, mas ela não ia nisso, ria-se dele à sucapa, chamava-lhe nomes feios, uma autêntica negação. Dª Purificação pedira-lhe que ao menos não o ofendesse muito, que escrevesse com cuidado, com moderação e tinha pelo menos essa confiança.
"Aqui tem a carta...". Ele pegou nela com as pontas dos dedos, mirou-a com um carinho transbordante e foi vê-la no silêncio do quarto, talvez sonhando com páginas cheias de arrebatamento.
Dª Purificação começou a depenar a galinha num ritmo acelerado, aflita por dentro, a tremer e a suar, que não sabia até se o homem não se iria sentir mal. Mas ele apareceu em seguida e não vinha mal disposto. Tinha até um sorriso animado, saltitava de mãos nos bolsos, e oferecia-se para ajudar a depenar a galinha. Da carta não dizia nada e Dª Purificação já não sabia o que pensar. Mas também não queria pensar muito, o melhor era fazer perguntas, que não dava trabalho nenhum, e foi exctamente o que fez.
-"Agradou-lhe a carta, pelos vistos??"- ensaiou interessada.
-"Não foi uma festa, não foi!" - respondeu ele a coçar a cabeça." Mas também não a considero uma recusa ou uma desilusão. Eu vou ler-lhe umas palavras".
Tirou do bolso a folha de papel e leu pausadamente: "Agradeço querer até fazer-se ladrão por minha causa. Mas sabe? é que não basta ser ladrão..."
Dª Purificação engoliu em seco; ela sabia o que isso queria dizer. Mas ele não. Ele ficou enternecido, compreendeu de outra maneira.
-"Terei que ser mais que ladrão"- confessou - "agora só tenho é que pensar: além de ladrão, o quê mais?? É assunto para rever, com muito cuidado e atenção!"

Sem comentários: