sábado, 9 de fevereiro de 2013

Alfaces e milhões

Ao que uma triste mortal chega, bolas! Para comer uns sconezitos e tomar um cházito e já não ter que fazer nada para o jantar(também não tinha nada em casa, mas a minha imaginação não tem limites quando se trata de pedir empresta-dado qualquer coisita aos meus vizinhos..) , lá tive eu de ir ao lanche que o Agapito decidiu dar hoje,  a pretexto de debatermos a situação do país, sim que nós também debatemos a situação do país, o que é que julgam? Se fica mais a norte, ou mais a sul, se está acima do Brasil ou ao lado, etc, etc. Cultura. E lá vamos mastigando alguma coisa nos entrementes. Só que desta vez a palerma da Fedúncia estragou tudo. Desatou para ali a falar em fraudes e bancos e milhõeses e ófechores e não sei quê e até me ia engasgando porque não queria que ninguém percebesse que eu não estava a perceber nada e queria entrar na conversa e não sabia como. Por isso, como não sabia como, comi. Lá fui dando conta dos scones, orelha no ar e mão nos ditos, até que ouvi algo que felizmente me disse alguma coisa. "Cadeia, Fedúncia? Falou em cadeia? Ah, pronto. Estavam a falar ali do Ti Cósmico que apanhou dois anos por tirar uma folha murcha da alface no supermercado? Fizeram bem, ora essa. Tirar assim uma folha murcha. Não se faz. Ou murcha ou marchas. E marchou." Quando acabei , ui, foi cá um silêncio! Nem já se ouvia o sorvedoro da Fedúncia a beber o chá, nem os pequenitos arrotos da Escolástica e muito menos o som de máquina de cimento que sai da boca do Agapito que a gente até vê o interior todo enquanto ele come! Parou tudo. Pareciam tolinhos. Eu até nem fiquei muuuito preocupada porque o outro dia vi um anuncio na televisão em que paravam todos e a certa altura dava uma música e pumba, lá andavam outra vez. Mas já estava a demorar muito. E aí, à falta de música, resolvi trincar ruidosamente o último scone! E não é que deu resultado? Aquilo é que foi uma catadupa de "ais" e "óis" e "uis" e outros palavrões indecorosos que nem revelo! Por exemplo, o Agapito, quando se conseguiu fazer ouvir, o triste, disse esta coisa incrível de má educação e insensibilidade: " Credo! Onde é que a dona Lagarta tem andado?". Isto diz-se? Não gostei. Não se pergunta assim a uma senhora fina como eu onde tem andado porque toda a gente sabe que só ando por ali, não ando por sítios escuros ou com rufiões! "Senhor Agapito! Olhe como fala!". " Ah, pois olho! Olho sempre à volta antes de falar, lá isso é verdade!". Mas foi a Fedúncia que me salvou, benza a Deus. " Ó mulher, então você não viu a reportagem sobre aquele banco e aquela malta e aqueles milhões? Não anda a par dessa pouca vergonha?". "Ó Fedúncia, poucas vergonhas não é comigo e como vos ouvi falar em roubar associei ao Cósmico". " Pois - disse ela -  mas esse foi dentro, estes não". E eu : " Mau. Foi dentro como?". E vai ela: "Então não disse que foi preso?". E vou eu: "Foi, e daí?". E ela outra vez, a sarna. "É que estes não. Está a perceber? Estes não. Amarfanharam-se com  milhões e andam por aí, mulher!". Não me fiquei! " Olha a grande coisa, Fedúncia. Não se chamam Cõsmicos ou chamam? Olhem questa!". Toma, que já levaste.
Mas tenho a impressão que é melhor rever a minha cultura geral. Houve aqui qualquer coisa que me escapou.

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