Imaginem que não têm acesso a qualquer tipo de media com imagem. Imaginem-se a ouvir rádio. Só som. Vozes. Música. Agora imaginem que começam a ouvir dois locutores a descreverem um cenário de guerra. Guerra bem perto. Por exemplo, em Lisboa. Houve um ataque, algo enorme caiu no centro da cidade, há pânico, gritos, som de âmbulâncias, pessoas que descrevem horrorizadas a invasão a que estão a assistir, os locutores aos gritos, etc,etc. Acreditavam? Sentiriam medo?
Estou convencida de que hoje em dia quase ninguém dirá que teria medo. Estão habituados à imagem. É natural. Tão natural como o pânico que Orson Wells gerou quando num programa de rádio relatou a invasão de marcianos. Estão-se a rir? Houve pânico mesmo, houve pessoas que nem esperaram pelo fim do programa de notícias e fugiram de casa. Nos estados Unidos. No Canadá. E não só. O realismo era tal que milhões acreditaram nessa invasão (baseada no livro de H.G.Wells "A Guerra dos Mundos). É que ainda por cima aquele programa nem sequer teve intervalos para anúncios - o que era habitual - e tornou-se, portanto, numa sucessão de notícias cada vez mais angustiantes e "realistas". Como foi possível?
Hoje em dia isto seria impensável. Ligavamos logo a televisão ou o computador ou o telemovel, certo? Pois. Mas naquela época a rádio era o companheiro quase único de muita gente. Foi o tempo da "vila global". Foi um tempo giro, que recordo da minha infância e adolescência. Ainda me lembro do romance do Tide (por alguma coisa novelas em inglês diz-se "soap operas"..- é, soap é sabão.., vale a pena pesquisar o motivo, digo-vos), dos relatos do hoquéi em patins, daqueles diálogos absolutamente loucos que nos faziam rir às lágrimas, dos relatos de futebol, dos concertos, das poesias e narrativas que nos faziam sonhar,...tanta coisa. Só som. Sem imagem. A única imagem era a que existia dentro de nós, na nossa imaginação.
Foi muito bem vinda a televisão e todos os meios de comunicação que fazem parte do nosso dia a dia. Foram bem vindos. Adoro. Mas a rádio tem sabido lutar contra o esquecimento. Ainda é insubstituivel, por exemplo, em lugares remotos, onde não é difícil imaginar alguém ligado ao mundo ou apenas ao "seu mundo" com um rádiozito nas mãos.
Como diriam os Queen :"You´re yet to have your finest hour".
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