Isto assim não pode ser! Não pode, pronto. Sou contra. Ninguém devia estar contente por trabalhar. Que é lá isso de eu ir a algum lado e ser recebida com um sorriso? "Olá, está boazinha? Muito gosto em vê-la!". Mas qué isto? Primeiro: boazinha??? Porque não "boa"? É por ser pequenina, é? E se eu não estiver boazinha nem boa? É uma ratoeira, de certeza. Devia era dizer "Olá, tudo mal?", sempre podia responder "Tudo" e acabava-se ali a bisbilhotice. E depois, olha questa! Muito gosto em vê-la. "Muito gosto" não é "muito muito gosto" em vê-la, é um gosto pequeno, não é assim um gostão! E devia ser. Mas também pode ser outra ratoeira. Pode querer dizer muito gosto em vê-la daqui para fora, é só uma questão de tempo, de certeza... se eu ficasse mais um bocadinho, quem sabe?!. Ora isto tudo evitava-se se ninguém nos cumprimentasse, ou dissesse antes "Que é que queres, pá? Andas às compras? Andas? E eu a trabalhar, né?". Assim é que era. Devia estar tudo mal disposto por ter trabalho, até porque há muita gente sem trabalho, infelizmente, e estes desgraçados que têm trabalho não deviam ter, por solidariedade. É uma chatice. Trabalham. Ganham dinheiro. Onde já se viu? Por isso eu digo que devia ser proibido ainda haver quem goste de trabalhar. Só à bofetada! " Ai, ao menos tenho emprego!". Pumba! Lambada! Mas a culpa não é deles, não é não. É de quem inventou essa coisa do trabalho para ganhar dinhiero, muito ou pouco. Não havia cá trabalho para ninguém. Ou então só iam trabalhar quando precisassem de trabalhar, mas enquanto não precisassem de trabalhar, só ganhavam dinheiro. Há por aí alguns assim. De qualquer modo, sou absolutamente contra o arreganharem-me os dentes seja onde for. Trombas. Apenas trombas. Uma espiral recessiva de trombas. Era assim. Ao menos eu sabia com o que contava. E não tinha que assistir a poucas vergonhas como a que se passou comigo o outro dia em Balouço, ao pé da fronteira com Badajoz. "Bom dia! Deseja alguma coisa?". E a menina arreganhou a tacha. Olhem, veio logo o encarregado e disse para mim : " A senhora desculpe a delicadeza, sim? esta funcionária é muito delicada. Desculpe o incómodo". E logo a seguir: "Ó Melinda! Rua! Não se recebe assim um cliente! Sua bem educadona!". Eu bem que a defendi, mas o homem foi inflexível. O que vale é que foi muito educado logo a seguir. "Deseja alguma coisa ou só quer ver?", isto com umas trombas do caraças. Ah, assim, sim.
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