segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A Provinciana Rechonduda

Outra carta. Susana baixou-se para lhe pegar e, embora sorrisse com indiferença, tremia um pouco. Precisamente igual à primeira, com a mesmíssima letra e tudo. Tinham-lha metido por baixo da porta. Quando? Gostaria imenso de ter ouvido. Teria sido muito rápida e talvez conseguisse enfrentar-se com a pessoa que se prestava a tão baixas manobras. Foi lê-la junto à janela da sala onde, momentos antes, tinham tomado o pequeno almoço, ela e o Alípio. A prima Vitória saíra mais cedo do que o habitual, porque tinha que provar umas roupas. De caminho seguia para a lição e, o Alípio ia ter com ela para ser prestável, como das outras vezes. A carta, com uma letra propositadamente bem legível, dizia: "torno a preveni-la. O seu marido continua com a loura rechonchuda, coradinha e bonitona, tipo provinciana e você não faz ideia como eles andam derretidos. Porque não vai dar uma olhadela? Se é que isso lhe interessa!".
_ Que estupidez!- disse Susana em voz alta, como se estivesse a responder à pergunta - iria sim, se a provinciana não fôsse a prima Vitória. Quanto a andarem derretidos - deu uma gargalhada - parece-me que o Alípio tem realmente sido amável como eu lhe pedi. Às vezes ele é tão sorumbático e tão pouco atencioso! São feitios! Mas com a prima Vitória tem-se portado bem.
Dobrou a carta, foi guardá-la com a outra e, quem lhe visse a expressão sorridente e galhofeira, diria que estava muito divertida. Depois começou a levantar a mesa do pequeno almoço, recordando, com ironia, aquela história da prima Vitória. Coitada! Se ela soubesse das cartas anónimas e como interpretavam as saídas dela com o Alípio! Uma pessoa tão encantadoramente simples como a prima Vitória ser tomada por uma qualquer!!
Tempos antes ela tinha-lhes escrito da aldeia e dizia que estava com muita vontade de tirar a carta de condução, mas que, por ali, não havia jeitos disso. Não sabia de nenhum instrutor e toda a gente lhe dizia que procurasse um meio grande, onde há tudo o que se pretende. " Lembrei-me" - acentuava na carta -" que a prima Susana e o primo Alípio me poderiam ajudar, isto se não é abusar da vossa amizade, caso soubessem de algum instrutor competente e educado, mandavam-me dizer, porque eu iria para uma pensão o tempo que fôsse necssário para tirar a carta. Sei que estou a maçá-los, mas esta informação é muito útil para mim, que sou uma provinciana ignorante e acanhada".
-"Vamos ser simpáticos com a prima Vitória" - dissera imediatamente a Susana. "Ela merece . E eu gosto muito da prima Vitória!".
Depois foram as necessárias recomendações ao Alípio. Que procurasse ser muito amável para a prima, ajudando-a no que fôsse preciso. E, até para lhe dar segurança, deveria levá-la às lições, todas as vezes que pudesse. "Se me apetecer!"- tinha ele dito.
Quanto à pensão, nem pensar nisso! A prima Vitória vinha para casa deles, porque tinham o maior gosto em ser prestáveis e simpáticos.
Tinham já passado umas semanas. As cartas anónimas vinham, a espaços. Agora até falavam na maneira como a provinciana rechonchuda se vestia, e se penteava, quais as côres dos fatos, tudo muito preciso, o que mais divertia Susana, em vez de a provocar. E, de acordo consigo própria, nem uma palavra ao Alípio, nem uma palavra à prima Vitória àcerca daquelas cartas acusadoras. Para quê? Para chocar e deprimir? Concerteza que a prima Vitória não ia achar graça nenhuma, nem a sério nem a brincar. E o Alípio também iria irritar-se muito! Ele que se esmerava em atenções por causa dela, Susana, lhe ter pedido e não por vontade própria! Não diria nem uma palavra! Talvez um dia, se a ocasião fosse oportuna e o momento fosse de risota, se resolvesse a mostrá-las.
Entretanto, a prima Vitória estava prestes a fazer o seu exame de condução. Dissera-o o Alípio, elogiando-lhe a inteligência e a facilidade de aprender. A prima Vitória, muito modesta, não achava que ele tivesse razão. Mas desejava, isso sim, tirar a carta quanto antes, porque, expressão sua, já estava a maçá-los demasiado.  Susana teimava que não. Aliás, a prima Vitória estava tão pouco em casa! Não dava maçadas nenhumas! Ela é que já devia andar um pouco saturada com as constantes saídas1
-"Faz amnhã o seu exame de condução!" - avisou o Alípio, com uma pontinha de nervosismo. "Saímos muito cedo. Não tens que pensar no pequeno almoço, porque tomamos fora. Isto se a prima Vitória achar bem" - acrescentou. A prima Vitória achou bem. "É que estou muito ansiosa, a pensar no exame!.
Susana compreendeu o nervosismo, porque ela própria estava nervosa. Era uma parvoíce. Mas realmente estava nervosa. E foi quem se levantou primeiro no dia seguinte. Se não tinha que dar o pequeno almoço, tinha concerteza que dar um almoço festivo como felicitação à prima Vitória. Fazia muito gosto nisso.
Mas, nem a prima Vitória nem o Alípio regressaram a casa nesse dia. Em vez deles, outra carta anónima apareceu, como de costume, igualzíssima por fora mas diferente por dentro. Susana, desorientada, já enfastiada do palavriado que conhecia, foi, como habitualmente, lê-la em frente à janela da sala. E foi nessa altura que notou que o palavriado era diferente, embora a letra fosse precisamente igual.  Dizia:" Creio, Susana, que mais carta anónima menos carta anónima, para ti é igual. Tens guardado as outras, não tens? E não te ralaste com o que diziam, pois não? Pensei que ficavas alvoroçada, mas viu-se que não ligaste. Gosto da prima Vitória , a rechonchuda provinciana e vamos raspar-nos. Será que agora dás mais atenção às cartas anónimas? Podes guardar esta também."
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