Eu nem sei como é que ainda consigo escrever. É certo que teclo só com um dedo, por isso não tenho muita noção de como os outros estão a funcionar, ou se estão a funcionar. Podem estar tremeliques ou gelados ou com formigueiro, sei lá, mas assim sempre é uma coisa a menos com que me incomodo. Incomodo, não. Aflijo, encuco, introspecto. Da outra mão também só uso um dedo, o das letras maiusculas e vá lá, esse também funciona bemzinho. Ainda não me deu para ver os outros, mas o melhor é ir trocando para testar o manuseamento. Fora isso, já perdi a conta às doenças que posso ter ou vir a ter, desde depressões, diabetes, problemas de próstata (o que é que foi? Fui confirmar se a tinha, não fosse o diabo tecê-las!), gripes, constipações, obstipação, diarreias...e tudo ao mesmo tempo. Ainda não me tinha assegurado de que, afinal, não tinha uma e pumba, toma lá outra. É que isto de uma pessoa estar a tomar o seu cafézinho logo de manhã - 8 e pouco - sossegadinha, até com um certo ar de quem dormiu benzinho e está pronta para começar a dizer umas asneiritas com as notícias, tipo uns grunhidos de "rais parta isto", "seus camelos", e "bolas", e aparecem sempre ali uns fulanos no ecrã a estragarem tudo. O cigarrito passa a cigarrão e fico logo com menos uns anos de vida no café e com falta de ar, o café alevanta-me a tensão e sinto o coração na boca, o espirro que o vizinho da mesa ao lado tinha dado passa a gripe C ou D e sinto logo comichões no nariz e pego logo no telemóvel para marcar consulta, a má disposição que tive demanhã que deduzi que era resultante do menu de três pratos gordurentos e saborosos, daqueles que fazem mesmo mal mas a gente até deixa porque sabem bem como o caraças, essa má disposição depois do jantar festivo da véspera, passa a princípio de uma gastroenterite e até me dá logo vontade de ir à casa de banho, a dor de cabeça, do mal estar da comida, que era só uma dor de cabeça, passa a coágulo e é preciso ver os sintomas e tal, o acúcar que pus no café porque na véspera ouvi que o adoçante era perigoso, passa a potencial malefício e nem sei como me contenho de não o mandar pesar para ver se durante o dia não ultrapasso as gramas devidas, a chávena que acabei de levar à boca passa uma bandida transmissora de bactérias porque pode ter sido mal lavada à mão ou ter sido lavada na máquina com um detergente que contém resíduos de não sei quê, o jornal sabe-se lá por que mãos passou, a tinta do jornal pode entrar na corrente sanguínea e provocar alergias e pode ter substâncias de não sei quê, a mesa e a cadeira têm milhões de bichinhos travessos que comem à minha custa e que podem provocar-me não sei quê...Puxa, para começo de dia, digo-vos, é obra. Apalpo-me toda logo de manhã, joelhos, braços, figado, costelas; vejo os olhos, o nariz, a pele, os sinais, as varizes, ao espelho que passei a trazer comigo, tusso para um lenço, assoo-me a um lenço branco para ver se fica verde, ponho o dedo no pulso, conto os dentes, puxo pelo cabelo a ver se cai, questiono-me sobre se tenho vontade de andar à lambada a alguém ou a mim própria, eu sei lá! Eu sei é que fico com os sintomas todinhos . Não dá jeito nenhum, depois fico sem forças para desancar nas notícias. Deve ser coisa da troika. Hum, manobras de diversão! Cheira-me.Eu já pensei em pedir para mudarem de programa, mas para isso tenho de chamar a funcionária e quem me diz que ela não está a chocar rubéola ?
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