" A loja? Você também saiu-me cá uma amiga de Peniche. Só lhe vim pedir que me emprestasse um bifito para o jantar e umas batatitas e um pãozito e um bocadito de margarina e um dentito de alho e uma alface e um pouco de azeite e vinagre e já está praí a dizer que isto é uma loja! Que ingrata, bolas!"
- Ó mulher, era uma força de expressão, caramba! Mas..espere aí. Ingrata, eu? In-gra-ta? Essa agora!"
- "Pois ingrata, sim, eu estive a fazer-lhe companhia enquanto lhe pedia aquelas coisitas de nada. Ora veja se me agradece, veja! Não volto cá!"
- "Olha que bom, viu?"
- Que gracinha! Pois fique a saber que volto, sim, para ver se já melhorou no tratamento que me dá!Até me ofende!"
- "Então ofenda-se! Olha questa! Quero lá saber. Quero é que se raspe, se pisgue, rápido, tá? Tenho de ir ver o meu blogue!"
- Ah, vê como é mázinha? Porque é que não posso ver o berloque, porquê?"
-" Ih Jesus! Ó mulher, eu não disse berloque, disse blogue! Be-lo-gue, percebeu?"
-" Lá está você com a mania das importâncias! Não podia ter um cãozito ou um gato. Tinha logo de ser um bloque. "
-" Gue! Gue!"
- "Gue, gue, o quê? Agora está gaga??"
- " Não, mas vou ficar! Olhe para mim: um be-lo-gue. Repita, ora repita lá".
- " Não posso repetir aqui? Sempre via se estava certo!"
- " Apre! que mal fiz eu! Pronto. Já chega. Vá andando. preciso de ir escrever uma carta. Ponto final"
"- " Parágrafo! também sei essa, viu? E vai escrever a quem? Posso saber?"
- " Pode. Vai ser uma carta aberta".
- " Aberta? E consegue arranjar envelope para isso? Não sei não. "
- " Não sei, não sei não. Cale-se! Uma cara aberta é uma carta que toda a gente pode ler apesar de ser dirigida só a uma pessoa, percebeu?"
- " Claro. Sou burra ou quê? E a quem vai escrever? Posso saber?"
- "Não, não pode!"
- "Mas disse que era aberta! "
- "Pois disse. E como você é uma chata, até lhe digo já, para ver se se vai embora de vez! Está-se-me a fugir a inspiração!"
- "Não se preocupe! Tenho lá em cima uma bomba para quando tenho asma..."
- " Desisto. Pronto. Fique sabendo que vou escrever ao senhor Costa. Do Castelo."
- " Qual Castelo? "
" O castelo onde eu a devia meter!! Que gaita! Vou escrever a oferecer-lhe os meus préstimos! Tenho muito jeito para fazer sobremesas, o que é que julga?"
- "Não julgo nada. Nunca comi nenhuma! Mas vai-lhe mandar algum bolinho, umas natas, ..o quê?"
- " Vou, sim, senhor. E depois? O homem anda a comer queijo demais e está a ficar desmiolado, ou melhor, desmemorizado. "
" Ena pá! Ka lindo! Desme...ado...pois. Então faz bem. Ajude o homem, pois. Ajude. Faz muita falta a memória, ó se faz! Eu também já não me lembro do que fiz há dois anos, nem onde estava, nem do que não disse, nadinha! É chato!"
- " Até que enfim que disse uma de jeito! E agora importa-se de ir andando? Preciso de ir rever uns artigos. Umas receitas. Coisitas sem importância! Mas que tenho de lhe enviar para lhe avivar a memória! Percebe?"
- "Percebo! De tal modo que até vou embora. Já vi que está numa de doideira. Mas julga que alguém a lê? Bem, vou indo".
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