domingo, 13 de janeiro de 2013

Massa a feijões

A culpa é do dinheiro.Diria mesmo que quem inventou o dinheiro devia ser preso. " Olha, tens ai algum dinheiro que me emprestes?". "Não, não tenho dinheiro nenhum!". Evitava-se isto. Se não houvesse dinheiro era muito melhor. "Olha tens aí feijões?". "Tenho. Montes deles.Queres?". Viram? Há uma grande diferença entre "nenhum" e "montes". A malta sentia-se sempre recomfortada, estimada, era uma auto-estima, não era uma estima sem auto, até porque a gente precisa de se deslocar. Claro que podem perguntar-me: "Então e como é que se pagam as coisas? A comidita, as roupitas, os livritos, a águita, a luzita, o gázito, a rendita, e os bilhetes pró futebol? ". É fácil. Não se pagavam. Não havia cá "Olha paga isto", era mais " Olha, dá cá uns feijões", "Encarnados ou brancos ou manteiga?". Estão a ver? Até havia possibilidade de escolha! Assim, não há. Eu não posso dizer "Paga-me aí só com notas de 500", posso dizer? Não posso. Isto para já não falar das coisitas que temos de pagar. Não se compravam. Não havia dinheiro, não havia tentações. A comida era fácil, feijões para todos ( até a igualdade era maior, viram?) e já está. Roupa também não sei para quê. Cada vez há menos estações. e as crianças crescem muito e mais cedo. Comprava-se logo em pequenos o tamanho de adultos, sapatos e tudo, era só encher de algodão ou jornais. A luz..para quê  luz? As velas não dão luz, não? E a lenha não substituia o gás? Há por aí tanto mato e andam sempre a dizer que não limpam, ora assim limpava-se o mato e havia menos incêndios. Só vantagens. A água é das mais fáceis. Era só escolher o rio ou o mar ou o riacho ou a poça mais perto de si. De si e de mim. Rendas não havia, nem prestações. Qual quê. Para quê ter casa? Com as velas e a lenha, ainda se lhe pegava fogo! Ah, pois é. O problema eram os bilhetes para o futebol ou o cinema, mas também, vivendo de feijões, se calhar era melhor evitar locais fechados, não? Ninguém tinha de saber a qualidade dos feijões. e não me venham cá com as netes, e faces, e tuitéres. Bastava um quiosque com isso tudo. Fazia-se fila e pronto. "Já se serviu da net?". "Já. Faça favor". Até as relações entre as pessoas eram mais amistosas. "Olhe, deixou o feice aberto!". "Não faz mal. Pode usar". Isto é que era! E é por isso que eu não entendo porque anda tudo histérico com o dinheiro.´Ou melhor, com a falta de dinheiro. Não entendo. Vai haver cada vez mais falta, é evidente,  porque estamos numa transição, valha-me Deus! Estamos a passar de dinheiro para feijões. Por isso, cada vez vai havendo menos dinheiro e mais feijões. Puxa, é assim tão difícil de entender? Adeus massa, olá feijões. Ambos alimentam, caramba! De que é que se queixam, hein, hein?? Ai ca paciência!

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