Marvila com dois "ll"
Bateu à porta, algo tombado, mas muito distinto, de cravo na lapela, as faces coradas, sapatos reluzentes. - "A menina está?". Era a empregada que tinha na frente. Moçoila guedelhuda, espantadiça, a modos que desconfiada. "Vou saber. Como é que se chama?". "Essa é boa! Eu sou o Marvila...". Ela retirou-se e ele ficou encostado ao portão do jardim a cheirar as trepadeiras. Cortou um botão e queria enfeitar a lapela mas reparou que já lá tinha um cravo. Admirou-se muito, não atinava donde tinha vindo o cravo, mas acabou por se lembrar e desatou a rir, com a mão na boca para não fazer barulho. "É verdade! Eu venho do casamento do Tricas!".
O Tricas era o velho tricas das farras, um solteirão até ao momento, que não queria prender-se mas tinha cedido, derretendo-se com as falas mansas da Alzirinha borbulhosa e dissera o "sim", e enfiara a aliança no dedo roliço, todo ele um noivaço; que bonito aquilo era!Tão bonito que ele próprio, Marvila, também se resolvera a casar e saíra do copo de água direitinho até ali.
- "A menina não está. Saiu com a Avó a comprar tremoços". Diante dele, novamente a guedelhuda espantadiça, que trazia o recado. Marvila, um pouco mais tombado, mas aguentando-se bem, com um braço apoiado no portão, um olho aberto outro fechado, achou estranho aquilo dos tremoços. Desatou a rir outra vez. Apetecia-lhe rir, não sabia porquê.
-"Ela demora muito?".
-"Se calhar demora. É capaz de pedir à Avó para passar no jardim para andar no baloiço". "Baloiço?!?". Marvila espantou-se, ficou mesmo embasbacado, porque achou raro aquilo dos tremoços e do baloiço.
- "Ela gosta assim de andar de baloiço?Mas ainda não mo tinha dito!".
"Tem 6 anos, não havia de gostar?"- disse a moça espantadiça, a querer espantar-se mesmo, porque tinha mais que fazer. E retirou-se, porque apareceu um sujeito de bigode que vinha indagar, pôr tudo a limpo, sem o menor constrangimento.
-"Mas quem é o senhor?"
-"Sou o Marvila. Marvila com dois ll".
-"Dois ll? E o que deseja o senhor Marvila com dois ll?"
Marvila endireitou-se, indignou-se e disse que aquilo já estava a passar a mais, que queria falar com a menina, mas que não era a que tinha 6 anos, era a outra...
-"Com a outra? Mas aqui não há outra, meu caro senhor..."
Marvila espantou-se, apontou um dedo em direcção ao sujeito de bigode e garantiu que todos os dias costumava estar ali a namorar, ela na janela, ele encostado ao portão.
-"Janela? Qual janela? Aqui não há janela nenhuma, dão todas para o outro lado...!"
O olho aberto do Marvila escancarou-se, fitou em cheio o bigode do outro. Admirou-se de não se lembrar do bigode e admirou-se de não haver janela. Mas não se convenceu. Teimou. Teimou que havia janela e que não a deviam ter mudado de sítio, pelo menos sem avisarem. O outro esboçou um sorriso. Começou mais ou menos a perceber. Virou divertido e disse-lhe que não se tinha mudado janela nenhuma, que pensasse bem que já via que se tinha equivocado.
O Marvila ofendeu-se! Ofendeu-se e ficou todo irritado. "Eu sei muito bem o que digo!"- gritou-lhe. "Eu vim do casamento do Tricas para falar com a minha namorada, percebeu?".
-"Mais ou menos" - disse-lhe o do bigode - mais ou menos. Mas, se me dá licença, e como aqui não mora a sua namorada, eu vou para dentro que tenho mais que fazer."
A porta fechou-se. O Marvila ficou de boca aberta, encostado ao portão, furioso. "Ele paga-mas!"- resmungava - ele paga-mas!". Mas não lhe apetecia mexer-se. Tinha uma soneira maluca, quase não se tinha em pé. Começou a resmungar sózinho, que não se fazia aquilo da janela, mudarem-na para o outro lado sem avisarem, que a namorada havia de ouvir das boas, não se esqueceria de lhas cantar.
Ele a falar em cantar e um grupo barulhento a aproximar-se, um punhado de jovens alegrotes que vinha estrada fora cantando, desafiando e rindo por tudo e por nada. Um deles reconheceu logoo Marvila. Avisou os outros, espetou um dedo na direcção dele e gritou-lhe:"Eh! Marvila! O que estás aqui a fazer? Tens medo que o portão caia ou que caias tu se largas o portão??".
Conheciam-se todos, afinal. O grupo vinha também do casamento do Tricas. Só de o verem a algazarra redobrou. Mas o Marvila, sorumbático, irritado, não quis responder. Aliás não podia mover-se. O portão aguentava-o, tropeço e sonolento. "Explica-te homem!" - disseram-lhe todos - "Não queres por aí uma ajuda?". Desataram a rir à gargalhada e foram-se chegando a ele, não estivesse por acaso a sentir-se mal disposto. "Mas que ideia tiveste tu de te vires agarrar ao portão? Conheces este portão?".
Troçavam e começaram a pensar por ele. Marvila acabou por dizer o que se tinha passado. Contou da namorada, dos tremoços, do baloiço e queixou-se sobretudo da janela, que a tinham mudado sem lhe dizerem.
-"Forte bebedeira a tua!"- exclamaram no meio da risota - "vem connosco que a gente é que te vai ensinar onde é a casa da tua namorada!".
Marvila deixou-se conduzir. Tem-te não cais, amparado neles, lá foi seguindo pela estrada, cravo ao peito, todo distinto, mas completamente embriagado.
Através duma talada da porta, que abrira sorrateiramente, o homem do bigode ficou a rir-se e a repetir com troça: "Marvila, com dois ll"..
Sem comentários:
Enviar um comentário