terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Contos improváveis-1

-"Se é para falar com o Doutor tem que esperar um bocadinho..."
O Pimenta disse logo que sim, que esperava o tempo que fosse preciso, ora essa, e sentou-se onde o mandaram sentar, com o boné entre os dedos e o cabaz encostado às pernas. Mas o cabaz não devia estar ali, tinha dentro um borrego, uns queijos da serra e umas maçãs e tudo aquilo podia desatar a cheirar mal, com o calor que estava. E, cheirando, mal, impestava a casa, uma casa daquelas, só luxos por todos os lados, que ele nem sonhava que houvesse casas assim. Então pediu à empregada que levasse para dentro o cabaz e que pusesse tudo ao ar, que era um presente para o senhor doutor. A empregada pegou no cabaz, mas logo ouviu chamar por ela, que era o doutor a dizer que já podia mandar entrar o Pimenta. Acanhadíssimo, o Pimenta seguiu a empregada, corredor fora, a pisar a alcatifa com todos os cuidados. Entrou num gabinete cheio de livros, candeeiros que só visto e sentado à secretária o doutor à espera dele, todo sorridente, de mão estendida para o cumprimentar, que se lembrava muito bem do Pimenta, tinham andado os dois na escola quando eram pequenitos. " Como é que vai o Pimenta, a família como anda e o que é que o traz por cá? Sente-se, Pimenta, esteja à sua vontade". O Pimenta sentou-se no sofá, que era mole e comfortável, mas encafuou-se demais, que não se sentia à vontade. Fez um esforço para se endireitar e disse o que pretendia, sim senhor, que era um empregozito, porque as terras não davam nada, os filhos tinham emigrado e ele sózinho não abarcava com o trabalho todo. Muito trabalho e nenhum proveito. O doutor admirou-se, complicou tudo, que isto de empregos estava mau e ele sem habilitaçoes, ainda pior, ainda mais difícil, que não via jeitos de arranjar fosse o que fosse. O Pimenta lembrou que talvez um lugar de contínuo, tinham-lhe falado nisso, se pudesse ser era bom.
"Porque não se faz criador de gado?"- lembrou o doutor a despachar. O Pimenta torceu o nariz, confessou que isso dava um trabalho maluco, que até meia dúzia de ovelhas lhe custavam a aturar, quanto mais um montão de cabeças, que só quem sabe o que é gado é que avalia o que isso custa. Mas, a propósito de falar em gado, falou do presentezinho, que desculpasse, que era uma vergonha, mas já tinha entregue à empregada um cabaz com um borrego, uns queijos da serra, daqueles que se esborrachavam em manteiga, e umas maçãs. Que era uma lembrançazita, que não reparasse, que não levasse a mal a insignificância.
O doutor arregalou o olho, doido por queijo da serra, doido por borrego e por maçãs e fingiu ralhar com ele, que tolice estar a incomodar-se, "ora o Pimenta", isso não se faz.
Daí começou a ter outra opinião. Realmente os empregos escasseavam, quando aparecia algum era logo apanhado, mas havia de se ver, ora essa, que para o Pimenta até se inventava um lugar de contínuo se não houvesse, que ele estava muito interessado em ser-lhe agradável, disso podia ter mesmo a certeza. E que fosse descansado lá para a aldeia, que o pedido estava feito, não se esqueceria, até ia tomar nota numa agenda: "urgente, arranjar emprego ao Pimenta". Depois disso levantou-se, que desculpasse não estar mais tempo, mas os afazeres eram tantos, "nem o Pimenta faz ideia!".
O Pimenta realmente não fazia ideia. Mas estava contente com a promessa de emprego, que não sabia como havia de lhe agradecer e até teve uma ideia veloz, daquelas que empolgam, que surgem mesmo na altura. Se o doutor lhe arranjasse um lugar de contínuo, viria por aí abaixo com um boi para lhe oferecer. Em vez dum borrego, seria um boi, que mesmo assim nem pagava os favores, mas já era um pouco mais e tinha nisso o maior empenho.
O doutor, sorridente, tornou a estender-lhe a mão, que não queria boi nenhum, nada de estar com despesas com ele. "E você desculpe, ó Pimenta, não estar mais tempo consigo, recomendações à sua senhora, eu depois mando dizer do emprego". O Pimenta, desvanecido, tornou a falar no boi. "Trago um boi. Trago-o comigo!...Mas o doutor saiu rapidamente, estava cheio de pressa. Apesar de tudo, o boi ficou-lhe na ideia, mas entre um boi e um borrego...se calhar preferia o borrego!.

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