quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

portuguese nightmares-T2-Ep 4

Já vos falei da Dona Pancreática? Não? Falha minha. Vive no último andar e quase ninguém a vê. Pertence a uma classe absolutamente privilegiada porque cá no prédio não há ninguém que tenha um emprego fixo. Por isso a fulana, logo de manhã raspa-se, só para não ter que nos ouvir. Também não sei porquê. A gente só queria saber onde trabalha, com quem, quanto ganha, quanto desconta, quanto gasta, quanto poupa, onde almoça, com quem almoça, como vai para o trabalho, com quem, como, quanto demora...essas coisitas pequenas. Mas ela é uma chata impertigada. Até parece que a gente não faz nada. Até faz, mas faz pouco porque não há mais, ora essa. É mesmo ranhosa. Bem, adiante. Hoje resolvi fazer-lhe uma espera. "Espera que já vais ver. Não saio daqui até entrares. Toma!". E tomou mesmo. Pumba, apanhei-a a entrar eram umas seis horas. Apanhou cá um susto, a pobre. "Ai credo, que susto! Que coisa!". "Que coisa não. Eu sou a Lagarta, que mora no 1º. Lembra-se?". "Então não lembro! Claro. E agora se me dá licença...". "Pois não dou, não. Estou aqui há que tempos que até se me doem os calos e as varizes e ia deixá-la ir sem lhe fazer umas perguntitas? Nem pensar! E estive que tempos a pensar nas perguntas!". "Olhe ó dona...qualquer coisa. A pensar morreu o burro. Ninguém lhe mandou, sabe?". "Diz muito bem, morreu um burro, não a burra. Não quer dizer que eu seja burra, mas pelo menos sou feminina, né? Não sou burro. ". "Já é alguma coisa, viu? Então com sua licença...". "Alto aí. Altoo! Mau. Nem pense em ir embora. Eu não a deixo passar no 1º, como é que quer ir para o 3º?". " Olhe que você está a arranjar lenha para se queimar!!". " Ai estou? E onde é que você vê a lenha, hein? E onde é que eu me queimo, hein? E como? Mau, mau. estou a ver que você não bate bem da bola!". " Agora pergunto-lhe eu: qual bola? É maluca?".
Bem, esta últma parte já foi dita um bocadito em tom mais elevado, mas também, "quem não se sente não é filho de boa gente", não é? E eu prezo muito os meus paizinhos e tios e tal, para deixar passar desaforo! O pior é que o palerma do Agapito - que deve estar sempre com o ouvidos colados à porta, o bisbilhoteiro - ouviu uns sons acima do normal e veio logo com as coisas dele: "Ai, vejam só que eu estava a passar pela porta de casa e ouvi um barulhito, julguei que era o carteiro. Então o que se passa? Boa tarde, donas". Bem...se o Agapito não existisse, tinha de ser inventado.. "Ó senhor Agapito. Alguém o chamou? A conversa ainda não chegou à cozinha!", disse eu. E ele: " Pois olhe que é pena! Assim sempre iam fazendo o jantarito". Aqui a Pancreática perdeu um pouco a compostura, coitada, e disse-lhe "Chiça, penico, chapéu de coco! Só me faltava este!". E o Agapito: "Pois não vai faltar mais, não senhor. Estou aqui à sua disposição!".  Bem, para ver se acalmava as coisas até porque ela coitada não sabe o emplastro com que está a lidar, lá tive que dizer . " Bem, dona Pancreática, pode ir. Já cá não está quem falou!". E ele: " A senhora é uma brincalhona, dona Lagarta. Então não está? Olhe eu. Aqui vivinho da costa!". " Aí eu disse :"Pois se quer continuar vivinho e da Costa ou de Almada ou do Barreiro, tanto faz, fuja da minha vista! Fuja! E a dona Pancreática....Mau. Ké dela? Ké dela? Viu...seu..seu...coiso. Fugiu-se-me a mulher! Viu? Nem dei conta! Ó Ceús, vinde cá baixo ver isto!". " Já cá não moram, dona Lagarta! Só se forem...".  Ó pernas! Aí vou eu escada acima! Livra!!!

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