Eu disse que ia acabar com os mails e passar às cartinhas e envelopes, mas foi só por raiva. Vocês perceberam isso, não foi? Ia lá agora deixar de ter mails. Nem pensar. Não posso é voltar a mandá-los para a Lulu, que a barulheira lá em casa foi de tal ordem que até me caiu um bocado de estuque no pudim de bacalhau que tinha para o jantar. É certo que ficou giro, parecia queijo ralado, mas nem com tempero consegui emborcar aquilo. Conclusão: recorri ao Agapito. O que uma pessoa faz para se alimentar! Enfim, lá fui. Pé ante pé, para a Fedúncia não ouvir, não vá ela também ter estuque no prato e vir logo atrás de mim, a fazer-se ao bife. Ao bife ou ao empadão ou seja lá o que fôr que o Agapito tiver para comer. Se é que tem. Mas aí entra o plano B. Toda a gente tem um plano B, por isso também posso ter. Mas a verdade é que não foi preciso. Tive uma sorte do caraças, o homem estava a comer uma sopita e ofereceu-ma logo, logo. Foi simpático. Simpático e burro, porque ficou sem comer, claro, mas uma pessoa não pode recusar ofertas destas, não é? Parece ingratidão. Então lá fui comendo a sopita (ainda não percebi é porque é que ele se lambia todo quando eu levava a colher à boca, mas deve ser tique, coitado) e lá lhe fui explicando o que se tinha passado com a Lulu e porque não podia voltar a pedir-lhe que me recebesse os meus mails que são os dela mas que são meus porque vão para ela. E disse ele: "Porque é que a dona Lagarta não lhe canta o fadinho? Pode ser que, com jeitinho, consiga que ela a receba outra vez!". "Senhor Agapito, cantar o fadinho? Eu? Nem chamar a polícia sei, homem!". " Não era cantar mesmo um fadinho, era cantar "o" fadinho, percebe?". E eu: " Não. Deve ser da sopa". E ele: " Veja se me entende. Ora pouse a colher". Pousei (mas não larguei a colher, tá queta!). " A dona Lagarta tem de se fazer ao piso. Tem de lhe cantar..pronto, eu digo doutra maneira, tem..." "Espere aí. Falou em pizza?". " Falei em piso. Piso!". " Então pise, é alguma barata? Olhe, eu vou comendo". " Dona Lagarta, o que eu quero dizer é que se a senhora lhe cantar a canção de bandido pode ser que ela se convença a recebê-los outra vez!". Até me engasguei. Lá se foi um pinguito de sopa pró galheiro. Bolas! "Ó senhor Agapito! Tenha juízo! Eu não conheço bandido nenhum! A coisa mais parecida com um bandido que eu conheço é o senhor e não me parece que seja muito bandido, é meio-bandido, porque se fosse bandido não me dava a..."(cala-te boca!)...a gentileza de me receber, né?". E disse ele. " Muito obrigado pelo elogio, mas concentre-se no que lhe disse. Cante-lhe a canção do bandido!". O que vale é que a sopa já era. Já podia abespinhar-me. "Ó homem, não não e não. Não vou agora à procura desse tal bandido nem aprender canção nenhuma, gaita! Sou alguma Ágata? Já agora podia dizer uma canção do Festival, mas também, de Abril a Maio..". " Dona, senhora, Lagarta. O que eu quero dizer é que deve tentar convencê-la com falinhas mansas, assim com jeitinho, uns versos, uns bolinhos, "ai que gosto tanto da sua vizinhança, ai que lindo talher", qualquer coisa, percebe?". "Percebo. Ah, pois percebo. Percebo que por hoje ficamos por aqui. Percebeu?". E ele: " E vai uma sobremesazita?". E eu: " Sobremesa...zita ou não, pode ser. Mas amanhã voltamos a falar da Lulu. Hoje não. A comer não raciocino. Tem de ser separado. Ou como, ou raciocino. Hoje...como".
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