É que nem pensar! Não volto a usar o telemóvel. Não volto, pronto. Quem quiser falar comigo só por escrito. Por carta. Sim, por carta, qual é o mal? E envelope e selo e tudo! Ora vejam lá se nesse tempo a malta tinha medo de ser ouvida? Não. Pois. Havia muito mais privacidade. Se nos abrissem o envelope, via-se logo, mesmo que voltassem a pôr cuspo ou a passar a língua pela bordinha. Via-se sempre. Lá estava um rasgãozito, uma dedada, o papel mal dobrado, cheio a perfume ou falta dele...era muito mais seguro! E o telefone estava em casa, sossegadinho, não precisava de carga, tinha só uns númerzitos, um fio que não dava nem para ir à casa de banho, tocava, a gente atendia, desligava e a vidinha era porreira! Agora? Nem pensar! Com o raio das tecnologias (ainda gostava de saber quem teve tal ideia para lhe dar uma murraça!) o que estou para aqui a escrever, por exemplo, pode ser lido, sei lá, no Azerbeijão, em Badajoz, na Nazaré. Não está certo. Sinto-me muita mal, lá com os áqueres e os virus e os insectos e os bolinhos. Ora vejam lá se alguma vez escreveram uma carta e ela chegou ao destino em branco ou com viroses? Não, pois não? Pois. E com os telefones ainda pior. Anda para aí tudo a ser escutado qué um horror! Já não se pode fazer um negóciozito sujo nem receber umas luvitas nem mandar alguém àquela parte sem que toda a gente fique a saber! E vai prós jornais e tudo! E televisão, e rádio! E facebooks e tuitéres. Não, eu não vou arriscar mais! Nem sei se a conversa que tive com a minha prima Alcina sobre o marido dela que anda sempre a ir ao café e a ser atendido pela mesma empregada que até se senta sempre com ele à mesa e tudo, nem sei se isso já não foi escutado! Já viram o sarilho? Não, comigo chega. Cartinha, selinho, envelopinho, carteirinho e caixinha de correio. Telefone? Só para ver se o meu Sporting ganhou. Assim, utilizo poucas vezes.
Sem comentários:
Enviar um comentário