quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A troca

Já descobri como vou conseguir ir almoçar à Assembleia. Sim, porque ainda não desisti. Ainda por cima aproxima-se o Natal e aquele luxmenu ainda deve ter mais iguarias inconfessaveis e sobretudo fora da bolsa duma triste como eu que recebo ao fim do mês sem mais uma parcelita dum extra qualquer, assim, um subsidiozito de tempo de espera do meu carro se pôr a trabalhar, tempo de espera de andar às voltas à procura dum lugarzito sem uma multa do caraças, etc. Coisas de lagartas.  Por isso resolvi propôr ao Agapito uma coisa muito em voga e que não faz moça a ninguém: a corrupção. Aliás, foi a prima  Fedúncia que se lembrou disso, ou julgam que ela não metia o bedelho no assunto? Assim que ouviu a barulheira do Pio e os trambolhões do Agapito veio logo escadas abaixo perguntar o que se passava e se podia ser útil. Apeteceu-me dizer-lhe "Então não pode? Pisgue-se!", mas a Fedúncia não é propriamente pessoa para se ter como inimiga, livra! Ficava sem uns pacotitos de açúcar de vez em quando! E quando ela soube do que se tratava, disse logo: "Ó prima, use a corrupção! É o que está a dar, prima!". E eu: "A Corrupção? Quem é essa? Vive cá no prédio? Não conheço!". "Prima Lagarta, lá está você a desconversar. A corrupção não é uma pessoa. É uma coisa, percebe? A prima pode corromper alguém para lá entrar!". " Ó Fedúncia, tudo bem, é uma coisa, mas acha que eu vou andar ou o Agapito a romper os fundos das calças a alguém? Parece mal!". " Ai, valha-me Deus! Não é cu-romper! É cô- romper! CÔ, cô!." " AH quer ir à casa de banho? Já podia ter dito!". "Ó prima, livra! Corromper significa dar uma coisa em troca de outra. Assim, tipo, tu dás-me isto e eu dou-te aquilo e não se fala mais nisso. Ficam ambos a ganhar. E ninguém sabe. Só os doises!". " Ah, isso está bem, Fedúncia! Mas ninguém fica a saber mesmo?". " Não, é sigiloso. Espere aí. Não diga já asneiras. Quero dizer que não se pode saber mas se se sabe ambos os doises dizem que não sabem e que sejam ceguinhos se alguma vez souberam. Percebeu?". " Então não percebi! Isso agrada-me. Ó senhor Agapito, está tão calado porquê? Gosta desta da corrupção ou não?". "Ah Dona Lagarta e Dona Fedúncia! O que seria dum Agapito sem as duas? Claro que gosto. Falam nisso na televisão e nos jornais e nas rádios todos os dias! Deve ser bom! Até porque nunca ouvi alguém dizer que se lixou por causa disso! Boa, Donas! Vamos a ela!". " Bem, senhor Agapito, vamos a ela também não. Não se extravase. Agora vamos ter que pensar na troca, percebe? O que é que nós temos para trocar com a entrada e com o almoço? A gente não pode usar mal a corrupção. Ou se usa ou não se usa. Deve ter regras e eu não quero ficar mal vista!". "Nem eu, dona Lagarta!". E diz a Fedúncia: " E se a gente entrasse, tomasse um cházinho enquanto se pensa no corrompimento?". Boa. E entrámos.

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