"Nem pense! Onde já se viu enviar uma carta aberta? Isso seria má educação, senhor Agapito. "
"Má educação? Pelo contrário, é muito fino, está muito na moda. Aberta é que é."
" Quer que lhe diga outra vez que nem pense? Então uma pessoa vai agora pôr no correio uma carta já aberta! assim toda a gente lê pelo caminho e além do mais estamos a prejudicar muita gente!"
"A prejudicar muita gente? Agora não estou a perceber."
"Não admira, você às vezes é burrito. Então veja, não se compram envelopes nem se põem selos nem se dá que fazer às pessoas que carimbam as cartas e por aí fora e depois queixam-se que as coisas fecham, qualquer dia até se mandam encomendas abertas, querem ver?"
"A senhora às vezes desliga-me o juízo. Uma carta aberta não quer dizer que vá aberta! Ora veja a carta aberta que o Dr Soares mandou ao nosso Primeiro, veja. Veja se..."
" Primeiro estou eu. E segundo, você já sabe que o nosso vizinho Dialécio Soares está velhote e às vezes até pede à prima Fedúncia para lhe coçar as costas porque sofre de reumatismo. E também já está um bocado com os fusíveis parados. O homem sabe lá escrever alguma coisa! Se mandou aberta é porque nem se lembrou de a fechar! Estou mesmo a ver a Fedúncia a esfregar as mãos de malandreca por lhe ficar com os euritos do selo e do envelope. Ela é bem capaz disso, ai não, não é.!"
" A senhora não me ouve, pronto. Está visto!"
"Mau, não ouço ou não vejo?"
" Irra. espere aí. Eu não falei desse Soares, bolas. Falei do outro. Aquele que até já foi Presidente e tudo! Aquele que fala muito na televisão e escreve umas coisas e tudo! Ora se ele manda uma carta aberta é porque sabe que pode mandar uma carta aberta. Uma carta aberta é uma carta aberta."
" Ah, já podia ter dito. Sabia lá que se referia ao senhor Salpico Soares, presidente da Junta que até escreve na gazeta da Bóina que eu compro todas as semanas?"
" Dona Lagarta. Agora irritei-me. Também não é esse! Livra! É aquele que pede a demissão do Primeiro, Segundo e Terceiro e que mandou uma carta aberta ao Primeiro para ele saber que ele e dezenas de outros que escreveram com ele querem que ele mande embora o Segundo e o Terceiro mas que primeiro tem de ir ele que é o Primeiro, percebe?"
" Então não percebo! Percebo bem que você sem gasolina não funciona. Vá lá tomar o seu café que a gente já fala. Onde é que já se viu dezenas de pessoas escreverem a mesma carta? É uma linha cada um, é? "
" Não é assim, não. Um escreve e os outros assinam."
"Então mas tiram à sorte? Acho isso mal. E para assinarem? Já viu a trabalheira? Mais valia escreverem "Soares e Companhia". Ou "Nóses"."
" Como queira. Já não digo mais nada. Esqueça a carta aberta, pronto".
"Ah, pois esqueço, esqueço. Eu gosto de coisas sérias. Não estamos em tempo de andar a brincar, senhor Agapito".
"Engana-se, dona Lagarta. Olhe que o Dr Mário Soares não brinca, ele.."
"Ah era esse? Ó homem, já podia ter dito, caramba! Esse realmente não brinca! Goza! Nã, não. Agora é que esqueça mesmo essa da carta aberta. É que eu ia lá pôr que ganho pouco e não tenho direito a nada e não tenho mesmo e ganho pouco mesmo! Nem pensar! Pensemos noutra!"
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