sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Mesmo Portuguese nightmares- 28

Estava eu muito sossegadinha a tomar banho com o telemóvel preso ao frasco do gel no caso de ligar a prima Fedúncia, quando tocam à campainha. Puxa vida! Até se me caiu o gel e o telefone e um gancho que tinha no cabelo! ka raio! A Fedúncia costuma ligar primeiro e não estava à espera de ninguém, nem do carteiro, infelizmente, e o carteiro também não seria porque o carteiro toca sempre duas vezes. Dizem. Escorregadela aqui, seguranço acolá, lá fui eu embrulhada na toalha espreitar pelo ralo.  OOps! Era o Agapito. Este tipo desde que o convidei a ir almoçar comigo à Assembleia da República nunca mais me largou a porta! Nem o cão, gaita! Como calculam, fiquei alarmada, sim, que aparecer à Fedúncia toda esmaranhada é uma coisa, ao Agapito é outra! O homem vive sózinho com o cão, nunca lhe vi lá saias nenhumas, nem calças, já agora, e vá lá, até que ainda sou uma moçoila enxuta - quer dizer, neste caso, molhada - e com tudo no sítio. Ou pou aí.  Não, não vou abrir. E se o Agapito me cobiça? credo, nem quero pensar! E vai daí disse-lhe pelo ralo: Ó senhor Agapito, desculpe mas não posso abrir! Não tenho chave. Ficou no café ontem à tarde! Desculpe, sim?". E ele: "Dona Lagarta, não seja por isso. Vou já lá buscá-la. Não demoro. Vou num pé e venho noutro!". Aí é que me convenci que o homem é doido, mesmo doido, tadito. Primeiro. como é que vai buscar a chave se eu estou cá dentro? É porque entrei, certo? É mesmo burro. Segundo: como é que ele diz que não demora se "vai num pé e vem noutro?". Digam-me! Então ir só num pé para lá e noutro para cá, não demora muito mais? Vai é demorar um tempão! E a coxear por ali fora ainda se me cai o homem ou bate com a cara num poste ou falha-lhe o coração e eu fico sem companhia para ir almoçar à Assembleia!!! Ora a minha vida! Não, primeiro está o pombo torcaz e a rola e o porco preto. Que se lixe! Abri a porta. Prefiro passar vergonhas e ter o Agapito inteiro. "Ah, dona Lagarta, eu percebi que não tinha chave e ia já já buscá-la, ia num pé e vinha noutro". Não sei o que me incomodou mais: se ele ter repetido aquela baboseira ou ele não ter ficado a salivar de me ver naqueles preparos. Ah ele é isso? Então espera. " E percebeu muito bem, senhor Agapito. Faça-me então esse favor. Vá buscar a chave para eu lhe abrir a porta, sim, se não é muito incómodo?". " É para já", disse ele. Irra, olha o que eu tenho de aturar para ter companhia para o almoço! Só se safou do meu mau génio porque não repetiu aquela do "vai num pé e vem noutro". Mas tenho pena. Sempre demorava mais.

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