Se há profissão para a qual toda a gente julga estar habilitado é a de professor. É vulgar ouvir dizer "olha, se não encontrar mais nada, vou dar aulas".
Primeiro: ser PROFESSOR não é dar aulas. É muito, muito mais do que isso. Dar aulas, realmente, confesso, toda a gente pode dar: ponham-me um livro de Matemática, ou Biologia, ou História, ou Geografia, à frente, digam para abrir na página tal, fazer os exercícios tais e ver as soluções, que eu consigo. Ou ponham-me uma turma à frente, dêem-me uma bola e ponho-os a jogar futebol. E passaram 90 minutos. E foi "porreiro", dei uma aula. Mas isso, garanto-vos, não é ser professor.
Segundo: já viram alguém dizer " olha, se não arranjar nada, vou fazer umas operações", ou "vou dar umas consultas no Centro de Saúde", ou "vou construir umas casas", ou "vou gerir um banco"? Etc, etc. Não, pois não? Pois.
É por isso que fico piurça quando ouço falar sobre o ensino. A maioria das vezes os tatebitaites são ditos por pessoas que nunca estiveram no ensino, nunca estiveram numa escola, nunca foram professores. Passo-me dos carretos. Sobretudo quando, com ar doutoral, enjoado, erudito, desconfiado ou irónico, com uns papéis à frente e de caneta na mão, se referem à desmotivação dos alunos. "É preciso motivá-los, ir de encontro às suas necessidades, incentivá-los..". Agarrem-me! Então e o que é que a maioria do triste do professor faz todos os dias? Motivar como? Ó filho, deixa lá, não fizeste o trabalho que te mandei há 8 dias? Não trouxeste o livro nem o caderno? Não trouxeste a máquina de calcular nem papel para escrever? Deixa lá, não te traumatizes! Também quem é que se lembra de pedir para fazeres alguma coisinha? Tens o telemóvel? Então chega. Assim nem vens tão carregado. Faz mal às costas, bolas!". Agora pergunto: quem MOTIVA o professor? E porque é que ele tem de estar sempre, sempre motivado, sempre de sorriso na boca? Não pode perder a cabeça de vez em quando? Não pode EXIGIR nadinha? Querem experimentar? O que vale é que ainda há muuuuiiitos bons alunos. E não me refiro só às notas. Refiro-me também à educação, ao empenho, ao saber estar. Bem hajam! Eles e os Pais deles.
E também já não posso ouvir falar das "crianças" que vão ser obrigadas a ir para um ramo vocacional depois de chumbarem ( cuidado, não se pode dizer "chumbar"ou "reprovar", é "não transitar" - com reservas - ou "sem aproveitamento") duas vezes até ao 6º ano! É que nessa altura já serão "crianças" de 13-14 anos! Ainda não sabem o que querem. Pois não sabem não, só lá para os 50, com sorte. Claro que não podemos correr o risco de generalizar. Há casos e casos. Alguns não têm nada a ver com falta de estudo. Esses merecem reflexão e respeito.
Por mim, fazia um Decreto-Lei a proibir qualquer pessoa de legislar, sobre o ensino, sem ter passado uns anitos numa escola. Mas não numa escola - modelo, claro. Numa escola onde não há aquecimento, onde se escreve de luvas por causa do frio, onde há um computador para cada 100 alunos, onde se ouvem palavrões de fazer corar qualquer um, onde os estores não funcionam e não se vê nadinha para o quadro ou para a televisão, onde é melhor passar no corredor com um capacete no caso de levar com alguma coisa na cabeça, onde os funcionários se arriscam a ser puxados pelos colarinhos ou a levar uma peitaça à Luisão, onde é uma festa quando as cadeiras teem 4 pernas e não há desenhos ou palavras para maiores de 21 escritos nas carteiras e nas paredes, onde o professor é melhor assobiar para o lado ou espirrar desalmadamente a fingir que não viu aquele apalpanço ou beijocanço, etc, etc. E não tinham dificuldade em ser colocados. Há por aí destas aos montes. E pode começar por ti, ó Mário!
O problema é que a geração dos que têm agora 50-60 anos, são todos uns traumatizados por não terem podido fazer nada daquilo. Taditos.
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